Tive uma surpresa quase orgásmica ao tomar conhecimento do novo embate da Prefeitura de Fortaleza. A loira – Luizianne Lins – peitou o ex-imperador da Província do Ceará nas duas décadas anteriores, o atual Senador Tasso Jereissati – desculpe-me o termo grosseiro.

Cocó - Iguatemi

A discussão recente vem de longe. Vem da época em que o ‘ex-celentíssimo’ era ‘desgovernador’ do Estado, detentor de largas terras na ‘far far away’ região desvalorizada do Bairro Água Fria. Com o poder dando papinha para o dinheiro, o então quase falido ‘governador’ concedeu a si mesmo o direito de desbravar o Cocó – área de proteção ambiental de mata fechada e manguezal dentro da cidade de Fortaleza – construindo uma avenida que o cruzasse ao meio e, exatamente ao meio do Parque Cocó, o Palácio Iguatemi. Veja só o que a atual gerente corporativa, Natália Jereissati, afirmou tentando converter o absurdo em ponto positivo para a imagem do Grupo:

‘A própria construção foi um desafio, porque o local era, à época, inóspito, em um bairro ainda praticamente desconhecido, longe do Centro’, destacou a gerente. Além da distância, frisou a diretora do Grupo Jereissati, Ilia Freitas, o Iguatemi quebrou paradigmas, enfrentou o preconceito de se fazer comércio em locais fechados e inovou. Reuniu em um só lugar o comércio, entretenimento, lazer e a prestação de serviços privados, públicos e comunitários.

São ‘300 lojas, 5.234 empregos, uma verdadeira cidade, 10,3 milhões de Kwh por ano e 60 mil visitantes por dia’. Tudo dentro de uma área de preservação ambiental.

Iguatemi FortalezaHoje, o Shopping comemora seus 25 anos pretendendo construir a Torre Empresarial Jereissati, o Iguatemi Empresarial. A nova empreitada imobiliária, empreendimento do Grupo Jereissati que já vendeu mais de 75% de suas 198 unidades, com campanha publicitária criada pela Ágil Comunicação e o conceito “Iguatemi Empresarial – Prático, Sofisticado e Inteligente”, tem projeto de construção ao lado do Shopping de mesmo nome – e dono – ? s margens do Rio Cocó, portanto dentro do Parque Cocó, entretanto, dessa vez, com Estado (Cid Gomes) e Município (Luizianne Lins) governados pelo partido oposto, o PT.

Não trago uma discussão partidária, até porque não sou filiado a nenhum. Apoio ou discordo apenas de decisões, não de partidos.

O fato é que a Prefeitura, afirmando ‘clamor público’- devido a ações da ong SOS Cocó e outras mobilizações (como esta) – solicitou um referendo ? Câmara Municipal para dar ao povo o direito de decidir se a obra deve ser construída naquele local ou embargada. Obviamente, a disputa tornou-se essencialmente política – ou surgiu como tal – entre os aliados do ex-celentíssimo (Pêessedêbistas e demais interessados) tentando derrubar o referendo e os aliados da ‘direita canhota’ lutando para levá-la a frente.

Para além das questões burrocráticas do sistema político brasileiro, independendo se o referendo está sendo posto de forma errônea ou não, se essa é ou não área de preservação ambiental, se órgãos já lhe deram licença ambiental, se isto se trata ou não de uma vulgarização do instituto ‘referendo’ (banalização da democracia? tsc tsc), ou até mesmo se o ‘querido’ procurador Oscar Costa Filho desconhece estrategicamente que o tal ‘Estado democrático’, citado por ele mesmo em entrevista em referência ? atual gestão política de nosso Estado, já não é aquele jogo carteado em que o ‘Zap’ esteve sempre na manga do ex-celentíssimo Sr. Jereissati; questiono um fator mais relevante:

A população da cidade de Fortaleza não tem o direito de decidir se quer ou não a construção de uma obra em determinada área?

Iguatemi Empresarial“No fundo, o procurador (Oscar Costa Filho) está defendendo que a população não seja ouvida”, disse o vereador Guilherme Sampaio (PT). E é isso mesmo. Se o referendo pode custar R$1.000.000,00 aos cofres públicos (e olha que o vereador Tim Gomes, presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, afirmou que nenhum dinheiro público vai ser utilizado), quanto não já perdemos em valores não financeiros com a tirania das gestões anteriores? A tirania precisa cair sim. O referendo talvez não seja necessário. Concordo que o investimento poderia ser melhor destinado, mas a democracia urra incumbido pelo marketing da gestão.

Que a prefeitura tem várias outras responsabilidades, é inquestionável, mas esse ato é necessário sob minha visão. Não devemos fechar os olhos para os demais problemas da cidade – e esse fato não deve impedir – mas louvar atitudes benéficas para a cidade ou mesmo para o planeta.

A questão não é se a obra deve ou não ser levada em frente, como deve estar claro, mas onde deve ser construído.

Hoje, as terras da ‘far far away’ Água Fria são uma das regiões mais valorizadas da cidade, o Parque Cocó perdeu grande parte de seu verde, o ex-celentíssimo está muito rico e o Shopping Iguatemi agora parte do Parque Cocó para o Pantanal, para Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul. Serão 40 hectares, 35 mil metros quadrados de área bruta locável.

Pantanal


‘Campo Grande é o retrato de Fortaleza de 25 anos atrás, com população de 768 mil habitantes, embora apresente indicadores econômicos superiores ao de Fortaleza’, citou Natalia ao apontar semelhanças do novo empreendimento com o Iguatemi. ‘Estamos na fase de projetos, as obras começam em dez meses’, projetou.

Agora é esperar para ver. Ou melhor, é lutar para não vê-lo.

Ah! E para quem esperava ver propaganda de cerveja ao ler o título do post, confira a Parte II muito em breve.

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1 comentário

  1. Ricardo Gadelha
    26/05/2007 às 1:26 am [+]

    E eu todo empolgado…

    Ainda bem que saí daquela trapizonga onde dava expediente diuturnamenteantes, antes que voasse pelos ares.
    Sim, pois para quem não saiba, o Iguatemo foi construído em cima de um mangue, ambiente riquíssimo em matéria orgânica.
    Antes de virar petróleo (aula básica de geografia), esse dito material, ao se decompor, gera gases, principalmente metano, que quando comprimido sob fortes pressões, como a de estar sob toneladas de concreto, tende a explodir (!!!)
    Portanto, cuidado onde for comprar os próximos presentes.