Depois do enfurecido ataque em Paris aos cartunistas da revista francesa Charlie Hebdo, eis que a empresa resolve lançar a nova edição com uma tiragem 50 vezes maior que o habitual. Será que tem alguém tirando proveito da situação?

charlie hebdo

A revista de humor Charlie Hebdo volta às bancas na quarta-feira, dia 14 de janeiro de 2015, com uma tiragem um tanto quanto superior ao habitual. Com tiragens 60 mil exemplares, a revista de humor sempre foi uma referência no mundo mas nunca tão popularizada quanto após o atentado. A primeira edição pós-atentado está saindo com nada mais nada menos que tiragem de 3 milhões de exemplares ou 50 vezes a tiragem habitual. A distribuidora MLP parece comemorar.

Com uma procura exagerada de seus exemplares, o mundo quer conhecer cada vez mais o humor ácido dos cartunistas e o que tanto motivou o atentado terrorista. E o que se encontra não é muito animador. Charges redundantemente carregadas de agressões em forma de humor explicam, embora não justifiquem, a fúria violenta dos extremistas islâmicos.

O humor sempre esteve protegido pelo pretexto de uma causa nobre, mas as consequências de um humor ácido são tão devastadoras quanto a mais indigesta opinião formada sob o espectro dos preconceitos não menos extremistas. Preconceitos e humores ácidos que intimidam, reprimem, incitam, violentam e, porque não, matam.

#JeNeSuisPasCharlie

Eu me solidarizo com as vítimas do atentado, com o ataque à liberdade de imprensa, mas #EuNãoSouCharlie. Não compartilho destes ideais de sociedade democrática em que o humor está acima do respeito às crenças, fé, etnias, culturas, gêneros, sexualidades e tantos outros temas tão delicados e que fazem tantos sofrerem mundo afora.

Não me identifico com o racismo caricatural degradante com o qual a Charlie Hebdo representa o mundo islâmico. Nem tampouco concordo com a constantes repetições midiáticas de que a Charlie Hebdo utiliza apenas um crayon. Este lápis é sim uma arma! E não dispara balas ou bombas, mas preconceitos, ofensas, ódio, humilhação.

Tudo isto para fazer rir ou para fazer dinheiro? Acho que a tiragem de 3 milhões de exemplares responde por si. E antes que me venham criticar, eu não sou muçulmano nem sequer cristão. Mas também não sou Charlie.

1 comentário

  1. Gabriel
    03/02/2015 às 8:49 pm [+]

    Concordo totalmente com o seu texto acima. Respeito e carinho pelo próximo valem mais do que democracia ou liberdade de expressão.
    Nada justifica o atentado, mas xingar o islamismo não é a melhor opção. Ao contrário de vc, sou cristão, mais precisamente adventista do sétimo dia, mas nem por isso desrespeitarei um judeu, católico, muçulmano, ou qualquer outro religioso que tenha crenças divergentes às minhas.
    #JeNeSuisPasCharlie