O mundo ficou perplexo e temeroso de mais um desastre de proporções catastróficas com o encalhe e posterior naufrágio, no mar Mediterrâneo, do navio de cruzeiro Costa Concordia. Com mais de 4 mil pessoas a bordo, a embarcação bateu em pedras próximas à ilha de Giglio, região da Toscana, na Itália. Por ter acontecido bem próximo da costa, o número de vítimas fatais foi relativamente pequeno comparado à outras tragédias (fala-se em cerca de 30 fatalidades), mas dois personagens dessa história terão destaque eterno nos anais dos acidentes marítimos: o capitão do Costa Concordia, Francesco Schettino e o oficial da Capitania dos Portos da Itália, Gregorio De Falco.

O naufrágio do Costa Concordia e como fazer o certo tornou-se exceção

Sem nenhuma explicação convincente, o Capitão Schettino abandonou o navio antes do fim do regate do passageiros. Isso infringe todas as normas do Código Marítimo (aquela velha máxima é lei: o capitão é o último a abandonar o barco), que preconizam sobre as responsabilidades dos comandantes de embarcaçãoes. Uma delas é a de ser o último a deixar o navio, zelando pela segurança e integridade física dos passageiros a bordo. Em meio a toda a tensão do resgate, com pessoas andando pelo casco tombado do navio de luxo, o oficial De Falco conseguiu localizar pelo telefone celular o capitão Schettino, que estava numa lancha nas proximidades do navio. Ou seja, fora dele.

Navio a pique, capitão covarde

O dialógo travado (e gravado) na sequência é dos maiores esporros que já vi na vida. Indignado com as atidudes mal-pensadas de Schettino, De Falco ORDENA, num tom imperativo de deixar o cabra com o rabo entre as pernas, que volte imediatamene para o navio para coordenar o resgate. As tentativas de explicação de Schettino sobre o porquê de estar fora da navio só irritam ainda mais o oficial De Falco, que chega a pronunciar alguns palavrões (em italiano) e ameaçar de prisão o comandante, caso ele não cumpra imediatamente as ordens.

Foram 4 minutos de fumo em Schettino, num diálogo que elevou De Falco à condição de herói nacional por ordenar que o capitão fizesse o que deveria ser feito e era o correto. Menos, bem menos. Opondo as atitudes de cada um dos envolvidos no episódio (Schetinno, um covarde; De Falco, um oficial cumpridor de suas funções) e sem nos deixar levar pelo emocional da coisa, De Falco apenas cumpriu com primor a tarefa delegada a ele, usando de seu conhecimento e posto outorgado com oficial superior da Capitania dos Portos. A veemência de suas ordens se explicam pela dramaticidade do momento, sem espaço para rodeios ou divagações de qualquer tipo. O fato de os italianos até pedirem seu nome para primeiro-ministro é apenas um sintoma da desgastada cena política italiana, onde um primeiro-ministro comprovadamente chegado em orgias sexuais e outros escândalos como Silvio Berlusconi mergulhou o país numa crise sem precedentes e acabou alijado do cargo no fim de 2011, numa tentativa de amenizar a crise.

O heroísmo de oficial De Falco pode até transformá-lo numa celebridade, possibilidade rejeitada de imediato pelo próprio, mas evidencia a mudança de paradigma comportamental de tempos tão loucos como este começo de século XXI, onde uma pessoa fazer sua tarefa com eficiência e algum brilhantismo é a senha para elevá-la à condição de herói nacional. Ou seja, está faltando referências de bom caratismo no mundo atual e qualquer manifestação neste sentido é motivo de festa e de exageros midiáticos.

Vada a bordo, cazzo!

A fala mais incisiva de De Falco, inclusive, acabou virando estampa de camiseta. O ‘vada a bordo, cazzo‘ (algo como ‘volte a bordo, c@#$lho’) está sendo adotado pelos italianos como um incentivo para a construção de uma nova Itália.

O naufrágio do Costa Concordia e como fazer o certo tornou-se exceção

Abaixo você pode conferir a gravação do telefonema entre o Capitão Schetinno e o oficial Gregorio De Falco, com legendas em português. Depois dessa, o capitão ficará com a orelha ardendo por muito tempo.

E só a título de curiosidade, veja abaixo uma relação com os maiores acidentes já registrados envolvendo navios e balsas, com data, local, embarcações envolvidas e o número de vítimas fatais:

  • 15 de abril de 1912: o Titanic afunda no Atlântico Norte (próximo ao Canadá) após bater num iceberg, matando 1.523 das 2.228 pessoas a bordo.
  • 29 de maio de 1914: a colisão entre o navio The Empress of Ireland e um cargueiro no Rio São Lourenço (Canadá) resulta na morte de 1.102 pessoas.
  • 25 de outubro de 1927: o transatlântico Principessa Mafalda se incendeia e afunda entre Cabo Frio e a cidade do Rio de Janeiro, matando mais de 300 pessoas.
  • 31 de janeiro de 1953: o navio Princess Victoria afunda após enfrentar uma tempestade entre a Escócia e a Irlanda do Norte. 133 mortos.
  • 29 de outubro de 1955: o navio de guerra soviético Novorossiysk, o maior da esquadra do país à época, explodiu e afundou no mar Negro, levando com ele os 609 tripulantes.
  • 25 de julho de 1956: os navios Stockholm e Andrea Doria colidem perto da costa americana. 50 mortos.
  • 22 de abril de 1980: a balsa Don Juan afunda após colidir com a barcaça Tacloban City, perto da ilha de Mindoro, nas Filipinas. Estima-se mais de 1.000 mortos.
  • 31 de agosto de 1986: o navio Nakhimov colide com o cargueiro Piotr Vasev no mar Negro. 423 vítimas fatais.
  • 6 de março de 1987: a balsa Herald of Free Enterprise, carregada de veículos, afunda no Canal da Mancha. 193 pessoas perdem a vida no acidente.
  • 20 de dezembro de 1987: a balsa Dona Paz afunda após bater no navio tanque Vector no mar de Sibuyan, nas Filipinas, matando um total de 4.386 pessoas.
  • 11 de abril de 1991: a balsa Moby Prince atropela o navio-tanque Agip Abruzzo, causando a morte de 140 pessoas, na costa da Itália.
  • 15 de dezembro de 1991: o navio Salem Express bate em recifes e afunda nos arredores do porto de Safaga, no Egito, levando consigo 464 pessoas.
  • 28 de setembro de 1994: o navio Estonia vai a pique perto da ilha finlandesa de Utoe, causando o falecimento de 852 pessoas.
  • 3 de fevereiro de 2006: a balsa Al Salam Bocaccio afunda após um incêndio a 90 km do porto de Safaga. 1.026 pessoas mortas.
  • 21 de junho de 2008: o navio Princess of the Stars afunda depois de ser atingindo por um tufão nas Filipinas. 773 pessoas perdem a vida no desastre.

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