Hoje recebi por e-mail um artigo de autoria de Ivan Pinheiro sobre o filme Tropa de Elite.
Logo respondi a quem em enviou com uma única frase: “O autor desse artigo é um Muleque!!!“.

É claro! As pessoas costumam denegrir o trabalho alheio para serem vistas como superiores. É esse o trabalho dos críticos de cinema (não que o autor seja crítico de cinema, não o conheço, mas aqui ele age como um “crítico social de cinema”… humpf), não? Os críticos criticam negativamente para que o público acredite que ele entende e sabe fazer melhor. Assim, o público vai sempre confiar neles, pois ele supostamente sabem mais que o leitor. O problema é que geralmente eles não sabem fazer melhor. Justamente por isso se tornaram críticos. Se fossem melhores, provavelmente estariam criando obras de arte, não criticando. tsc tsc tsc.

Tropa de Elite

Voltando ao artigo, o autor cita um preconceito que não existiu e se torna, assim, um preconceituoso. Ao mesmo tempo, onde não há como negar que o preconceito foi combatido, ele diz que é para gerar aparências. É natural que os alienados em movimentos sociais se sintam ofendidos ao ver o movimento estudantil sendo atacado, as manifestações sociais, a classe média, a alta, a baixa,… O autor levanta questões totalmente levianas do ponto de vista social, visto que aqui ele tido como um crítico social também.

O filme, por sua vez, contrariando minha expectativas, foi muito além de balas, corpos, violência, cópia do “novo” – as aspas se justificam pela mudança de elementos nesse formato, mas mantendo a estética obscura, desfavorecida, pobre e violenta da sociedade em contexto no lançamento do filme) formato de sucesso do cinema brasileiro. O filme traz uma profunda reflexão psicológica com uma atuação absurdamente competente de Wagner Moura, assim como de diversos outros atores, e, principalmente, aquilo que fez Ivan Pinheiro escrever uma crítica desse tamanho: reflexão social. Justamente o que o brasileiro precisa.

A obra de entretenimento gera muita discussão, polêmica. Desnuda a sociedade de sua grande hipocrisia.

O mais interessante, no entanto para mim, é ver como a corrupção, tratada no filme, está enraizada na identidade e na cultura do povo brasileiro. Não está só na política, que acaba sendo o bode espiatório da coisa, mas em grande da população. Está no ar, nas veias. Passa de geração a geração. Tanto que o filme que trata justamente disso, de corrupção, é o mais pirateado da história. Tanto que os maconheiros, os drogados, tomam um soco no estômago com essa obra e riem da situação. Adoram ver a desgraça que sua própria corrupção causa na sociedade. A realidade se torna entretenimento para um povo sem muita perspectiva, mas com hipocrisia de sobra.

Sem mais, opine sobre o artigo de Ivan Pinheiro:

“Homem de preto.
Qual é sua missão?
É invadir favela
E deixar corpo no chão”
(refrão do BOPE)

Não dá cair no papo furado de que “Tropa de Elite” é “arte pura” ou “obra aberta”. Um filme sobre questões sociais não podia ser neutro. Trata-se de uma obra de arte objetivamente ideológica, de caráter fascista, que serve à criminalização e ao extermínio da pobreza. É possível até que os diretores subjetivamente não quisessem este resultado, mas apenas ganhar dinheiro, prestígio e, quem sabe, um Oscar. Vão jurar o resto da vida que não são de direita. Aliás, você conhece alguém no Brasil, ainda mais na área cultural, que se diga de direita?

Como acredito mais em conspirações do que no acaso, não descarto a hipótese de o filme ter sido encomendado por setores conservadores. Estou curioso para saber quais foram os mecenas desta caríssima produção, que certamente foi financiada por incentivos fiscais.

O filme tem objetivos diferentes, para públicos diferentes. Para os proletários das comunidades carentes, o objetivo é botar mais medo ainda na “caveira” (o BOPE, os “homens de preto”). O vazamento escancarado das cópias piratas talvez seja, além de uma estratégia de marketing, parte de uma campanha ideológica. A pirataria é a única maneira de o filme ser visto pelos que não podem pagar os caros ingressos dos cinemas. Aliás, que cinemas? Não existe mais um cinema nos subúrbios, a não ser em shopping, que não é lugar de pobre freqüentar, até porque se sente excluído e discriminado.

No filme, os “caveiras” são invencíveis e imortais. O único que morre é porque “deu mole”. Cometeu o erro de ir ao morro ? paisana, para levar óculos para um menino pobre, em nome de um colega de tropa que estava identificado na área como policial. Resumo: foi fazer uma boa ação e acabou assassinado pelos bandidos.

Tropa de Elite

Para as classes médias e altas, o objetivo do filme é conquistar mais simpatia para o BOPE, na luta dos “de cima”, que moram embaixo, contra os “de baixo”, que moram encima.

Os “homens de preto” são glamourizados, como abnegados e incorruptíveis. Apesar de bem intencionados e preocupados socialmente, são obrigados a torturar e assassinar a sangue frio, em “nosso nome”. Para servir ? “nossa sociedade”, sacrificam a família, a saúde e os estudos. Nós lhes devemos tudo isso! Portanto, precisam ser impunes. Você já viu algum “caveira” ser processado e julgado por tortura ou assassinato? “Caveira” não tem nome, a não ser no filme. A “Caveira” é uma instituição, impessoal, quase secreta.

Há várias cenas para justificar a tortura como “um mal necessário”. Em ambas, o resultado é positivo para os torturadores, ou seja, os torturados não resistem e “cagüetam” os procurados, que são pegos e mortos, com requintes de crueldade. Fica outra mensagem: sem aquelas torturas, o resultado era impossível.

Tudo é feito para nos sentirmos numa verdadeira guerra, do bem contra o mal. É impossível não nos remetermos ao Iraque ou ? Palestina: na guerra, quase tudo é permitido. À certa altura, afirma o narrador, orgulhoso : “nem no exército de Israel há soldados iguais aos do BOPE”.

Para quem mora no Rio, é ridículo levar a sério as cenas em que os “rangers” sobem os morros, saindo do nada, se esgueirando pelas encostas e ruelas, sem que sejam percebidos pelos olheiros e fogueteiros das gangues do varejo de drogas! Esta manipulação cumpre o papel de torná-los ainda mais invencíveis e, ao mesmo tempo, de esconder o estigmatizado “Caveirão”, dentro do qual, na vida real, eles sobem o morro, blindados. O “Caveirão”, a maior marca do BOPE, não aparece no filme: os heróis não podem parecer covardes!

Tropa de Elite

O filme procura desqualificar a polêmica ideológica com a esquerda, que responsabiliza as injustiças sociais como causa principal da violência e marginalidade. Para ridicularizar a defesa dos direitos humanos e escamotear a denúncia do capitalismo, os antagonistas da truculência policial são estudantes da PUC, “despojados de boutique”, que se dão a alguns luxos, por não terem ainda chegado à maioridade burguesa.

Os protestos contra a violência retratados no filme são performances no estilo “viva rico”, em que a burguesia e a pequena-burguesia vão para a orla pedir paz, como se fosse possível acabar com a violência com velas e roupas brancas, ou seja, como se tratasse de um problema moral ou cultural e não social.

A burguesia passa incólume pelo filme, a não ser pela caricatura de seus filhos que, na Faculdade, fumam um baseado e discutem Foucault. Um personagem chamado “Baiano” (sutil preconceito) é a personificação do tráfico de drogas e de armas, como se não passasse de um desses meninos pobres, apenas mais espertos que os outros, que se fazem “Chefe do Morro” e que não chegam aos trinta anos de idade, simples varejistas de drogas e armas, produtos dos mais rentáveis do capitalismo contemporâneo. Nenhuma menção a como as drogas e armas chegam ? s comunidades, distribuídas pelos grandes traficantes capitalistas, sempre impunes, longe das balas achadas e perdidas. E ainda responsabilizam os consumidores pela existência do tráfico de drogas, como se o sistema não tivesse nada a ver com isso!

Tropa de Elite

O Estado burguês também passa incólume pelo filme. Nenhuma alusão à ausência do Estado nas comunidades carentes, principal causa do domínio do banditismo. Nenhuma denúncia de que lá falta tudo que sobra nos bairros ricos. No filme, corrupção é um soldado da PM tomar um chope de graça, para dar segurança a um bar. Aliás, o filme arrasa impiedosamente os policiais “não caveiras”, generalizando-os como corruptos e covardes, principalmente os que ficam multando nossos carros e tolhendo nossas pequenas transgressões, ao invés de subirem o morro para matar bandido.

A grande sacada do filme é que o personagem ideológico principal não é o artista principal. Este, branco, é o que mais mata. Ironicamente, chama-se Nascimento. É um tipo patológico, messiânico, sanguinário, que manda um colega matar enquanto fala ao celular com a mulher sobre o nascimento do filho.

Mas para fazer a cabeça de todos os públicos, tanto os “de cima” como os “de baixo”, o grande e verdadeiro herói da trama surge no final: Thiago, um jovem negro, pacato, criado numa comunidade pobre, que foi trabalhar na PM para custear seus estudos de Direito, louco para largar aquela vida e ser advogado. Como PM, foi um peixe fora d’água: incorruptível, respeitava as leis e os cidadãos. Generoso, foi ele quem comprou os óculos para dar para o menino míope. Sua entrada no BOPE não foi por vocação, mas por acaso.

Tropa de Elite

Para ficar claro que não há solução fora da repressão e do extermínio e que não adianta criticar nem fazer passeata, pois “guerra é guerra”, nosso novo herói se transforma no mais cruel dos “caveiras” da tropa da elite, a ponto de dar o tiro de misericórdia no varejista “Baiano”, depois que este foi torturado, dominado e imobilizado. Para não parecer uma guerra de brancos ricos contra negros pobres, mas do bem contra o mal, o nosso herói é um “caveira” negro, que mata um bandido “baiano”, de sua própria classe, num ritual macabro para sinalizar uma possibilidade de “mobilidade social”, para usar uma expressão cretina dos entusiastas das “políticas compensatórias”.

A fascistização é um fenômeno que vem sendo impulsionado pelo imperialismo em escala mundial. A pretexto da luta contra o terrorismo, criminalizam-se governos, líderes, povos, países, religiões, raças, culturas, ideologias, camadas sociais.

Em qualquer país em que “Tropa de Elite” passar, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, o filme estará contribuindo para que a sociedade se torne mais fascista e mais intolerante com os negros, os imigrantes de países periféricos e delinqüentes de baixa renda.

No Brasil, a mídia burguesa há muito tempo trabalha a idéia de que estamos numa verdadeira guerra, fazendo sutilmente a apologia da repressão. Sentimos isso de perto. Quantas vezes já vimos pessoas nas ruas querendo linchar um ladrão amador, pego roubando alguma coisa de alguém? Quantas vezes ouvimos, até de trabalhadores, que “bandido tem que morrer”?

Se não reagirmos, daqui a pouco a classe média vai para as ruas pedir mais BOPE e menos direitos humanos e, de novo, fazer o jogo da burguesia, que quer exterminar os pobres, que só criam problemas e ainda por cima não contam na sociedade de consumo. Daqui a pouco, as milícias particulares vão se espalhar pelo país, inspiradas nos heróicos “homens de preto”, num perigoso processo de privatização da segurança pública e da justiça. Não nos esqueçamos do modelo da “matriz”: hoje, os mais sanguinários soldados americanos no Iraque são mercenários recrutados por empresas particulares de segurança, não sujeitos a regulamentos e códigos militares.

Parafraseando Brecht, depois vai sobrar para nós, que teimamos em lutar contra o fascismo e a barbárie, sonhando com um mundo justo e fraterno.

A trilha sonora do filme já avisou:

“Tropa de Elite,
Osso duro de roer,
Pega um, pega geral.
Também vai pegar você!”

(Ivan Pinheiro)

TROPA DE ELITE: A CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA! (Ivan Pinheiro)

Veja mais posts sobre o tema:
Monty Pyton: Tropa de Elite gaúcha – video
Politica: Tropa de elite – Só aprova a CPMF quem é Muleke (ou o Capitão Nascimento)

2 comentários

  1. Gustavo
    27/08/2008 às 11:54 am [+]

    “Putsgrilo”

  2. Tais
    31/03/2010 às 5:32 pm [+]

    Ao site que não gostou do artigo de Ivan Pinheiro recomendo que procurem conhecer e se interar a respeito da pessoa. O conheço e sei o quão digno e justo é. Não vejo absolutamente nada de errado em seu artigo. Ivan Pinheiro não é um crítico de cinema e muito menos teria a intenção de prejudicar alguém. É uma pessoa idealista e que visa a desigualdade social.
    Fico triste em ver os comentários em relação a uma pessoa maravilhosa que deveria ser conhecida antes de, neste caso sim, criticada.
    sem mais.
    Tais.